setembro 10, 2009

Assim que ele sai, ela corre para a janela. Tendo prestado atenção nas cores das roupas dele, sabe de que cor deve ser o pontinho distante cuja passagem aguarda. Ansiosamente – mais talvez do que aguardou sua presença próxima. Há algum tipo de beleza que só existe porque não sabe que é observada – essa é um tanto mais difícil de ser encontada nas mulheres, pensa, porque elas sabem que estão sendo observadas em boa parte do tempo e agem mais ou menos de acordo com essa consciência.

Ela observa a beleza do ponto branco e preto que caminha rapidamente, embora sem pressa, com um guarda-chuva na mão, em meio aos outros pontos. Vê seu andar da perspectiva do pontinho azul ao lado dele. Do pontinho vermelho à frente. Do motorista do sedan prata, do mendigo da rua, das flores amarelas no chão.

Passos, passos, passos, será que ele vai sumir sob as copas das árvores ou vai ser engolido pela esquina? Para onde vão os meninos bonitos quando ninguém está olhando? O mistério é bom. Ela se vira e só olha pela janela novamente quando sabe que ele já sumiu. Olha-se no espelho, arruma o cabelo, pensa bem e decide que a esquina que engoliu.

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(Chico Buarque – As vitrines)

Maurice Maeterlinck

setembro 9, 2009

Era um dia cinzento em São Paulo – um final de dia, na verdade. Cinzento como foi o dia todo. Mas ainda não era noite, ainda tinha luz e nem era só a luz dos relâmpagos.

Estávamos tomando café e eu estava feliz, nem tinha muito motivo para isso, tinha?, mas 2009 não é 2008, então eu ando feliz quase o tempo todo, assim, desse jeito mesmo.

Daí eu olhei pela janela. Não sei se foi toda a descarga elétrica na área, alguma mudança nos ventos ou nos astros, mas havia uma meia dúzia de pássaros voando bem perto da janela, dando voltas, como quem quer ser visto. Eu cheguei perto do vidro, acompanhei com o olhar, cheguei mais perto e me enfiei no meio da floresta de guarda-chuvas para chegar na janela aberta e me inclinar para fora, para poder ver.

Eram pássaros azuis

Todos eles, eu vi – eram pássaros azuis

Voando ao alcance da minha mão

Catorze andares acima da avenida, em Pinheiros

Pássaros azuis

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(Sabe aquela música que te faz feliz, sempre sempre sempre? Essa é a minha. Estava guardando para alguma data especial. Ei-la.)

Pedro, mecha azul, 4ª série

setembro 8, 2009

Meninos bonitos. Na quarta série você daria um braço para chegar um pouco mais perto deles. Você aproveita um momento em que eles não estejam atentos e se aproxima com um pretexto qualquer, não importa o quão bobo seja: ao ajudar com a prova de inglês, ao fingir que não entendeu o exercício de matemática e pedir explicação, ao separar uma luta.

Uma desculpa é só o que você precisa para conquistar algum território de pele. Ombros para as tímidas, joelhos para as ousadas, mãos para as sentimentais, e braços… para aquelas que gostam de braços.

Na quarta série esse contato é feito com todo cuidado. A oportunidade é pega no ar, a aproximação pede uma naturalidade bem calculada, toda uma delicadeza de espírito é necessária para aproveitar o momento e simultaneamente fazer com que se prolongue o máximo possível o contato com o calor daquela carne macia. Arrepios.

Ainda bem que a vida não é uma repetição da quarta série. Que ninguém fica toda besta por conta de um contato tão pequeno, breve, sem significado. Nem cheia de dopamininhas saltitantes que trazem consigo pensamentos muito, muito feios.

*

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Ah, os meninos bonitos. Ainda bem que a vida não é a quarta série – alguns deles, depois que crescem, ficam cheirosos também.

Lunchtime logical looping

agosto 25, 2009
(Feat. @jubatista)
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- E o Michael já gravou com o Paul, né?

- Já. Mó legal.

- Ebony and ivory?

- Não, essa foi com o Stevie Wonder. Com o Michael teve Say say say e The girl is mine.

- Ah! Pensei que tivesse sido com o Michael porque, né? Ébano e marfim, um é branco e o outro… o outro… o outro…

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Quê?

Você já foi melhor

agosto 21, 2009

“Você está apaixonada pela editora S.”, acusou a minha mãe. Para ser precisa, sou apaixonada pelas pessoas com quem trabalho. Além de livros didáticos de Química e Física para o Ensino Médio, nós também fazemos arte: poesia, desenho, origami e projetos de intervenção. Além, é claro, d’A revolução (depois do expediente).

Em um sábado de trabalho, dentro do elevador, aconteceu uma poesia concreta:

– Sábado é um dia meio ruim de pensar. Fica assim, um zumbido na cabeça

– Zumbi dona Cabeça?

E, assim, zumbi dona Cabeça se tornou nosso primeiro projeto de arte gráfica coletiva. Cada um fez a sua versão – é curioso como conseguimos ser uma equipe que faz algum sentido, tendo estilos tão diferentes. Dá até para fazer um teste em estilo Capricho: você é capaz de reconhecer a qual artista pertence cada desenho? (Clicando em cima da imagem ela aumenta, tá?)

Veja o Cid, por exemplo. Eu o conheci como sendo o galã da revisão que estava de visita e causou euforia entre as mulheres do 14º andar. Ele tem todo um jeito de falar com as pessoas e tratá-las como se estivesse flertando –- mas não está, é só o jeito dele mesmo. Interpreta sonhos incrivelmente e já foi DJ. Tem amigos assustadores, provavelmente porque tem seu lado assustador também: gosta de umas músicas trevosas e publicou um conto em uma coletânea sobre vampiros.

A Ju, em um primeiro momento, chama a atenção por ser linda e estar sempre bem maquiada e bem vestida. Mas logo fica claro que, além disso, ela é super competente no que faz — humilha. Tem um senso de humor incrível, crises de ansiedade e um amigo black-tie. Adora filmes de terror, desde janeiro vem aprendendo a gostar bastante de Beatles -– começou a namorar um beatlemaníaco -– e se identificou com o Pet Sounds. Não sabe qual é a da salsinha, nem a do Lynyrd Skynyrd, e às vezes parece que a vida dela está correndo de trás para frente.

O Ma. Ele fez Letras, fez Física e fez Satyros. Me apresentou à ficção científica mais legal ever. Gargalha de desespero. É o tipo de pessoa que vê unicórnios onde outros vêem cavalos. Joga futebol às quartas, veste rosa e não tem medo de usar o guarda-chuva parada gay que dei de presente de aniversário para ele. É casado com a Pucca, que tem toda a paciência do mundo para lidar com o fato de que ele é o primeiro a chegar na editora e o último a sair (de segunda a sábado. No domingo, ele trabalha de casa). Como se não fosse nada, virou para mim de repente e disse que leu todo o arquivo do meu blog.

A Mari. O desenho dela “parece uma figurinha… tipo Amar é… ou uma daquelas cheias de glitter. Só que twisted”. “Tipo Happy tree friends”. Ela sonha com o peito aberto, sem sangue, com um tubinho com uma ponta saindo do coração, a outra solta: “– O que esse sonho significa? – Que você é um andróide. – Mas eu não respeito as leis da robótica! Eu deixaria outro humano ser ferido. Na verdade, eu o feriria de bom grado. – É que você é um andróide mais avançado”. Aprendeu a rir em silêncio. Ela não tem dignidade e queria ser o Michael Jackson, porque ele está morto e não tem que lidar com nada disso.

Gabarito (em letras brancas): papel verde, Cid; papel laranja, Ma; papel amarelo, Ju, papel azul, Mari.

Quase pior. Café curto ou longo? Acho que sim. Pode fazer bem. Dá um toque? Caralho, Mariana! [Cara de choro] É o ponto alto do meu dia. A festa da Paula. No lugar da guilhotina, as estantes rolantes serão as armas da nossa revolução – convém a pessoas ilustradas.

agosto 15, 2009

Começar, recomeçar… é sempre bom ter algumas certezas.

A maior e mais valorosa delas é a de que tenho os melhores amigos do universo.

 

Yeah, that's me =)

 

Alguns deles são até capazes de lembrar de mim na Abbey Road. E registrar meu nome lá.

Fica aqui, como primeiro post, como amuleto. Agora vai.

Linda


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